Software livre, capitalismo, socialismo e um possível caminho novo
Discussão do uso de Linux por iniciativa privada ou estatal que deram errado (computadores/eletrodomésticos baratos e inclusão digital por licitação) e os que parecem que vão dar certo (ChromeOS e Pardus Linux). Reflexão sobre sistemas econômicos (capitalismo/socialismo) e por fim (mais polêmico!), sugestão de um caminho novo para uma sociedade ideal.
Parte 3: Motivações que formam o capitalismo e socialismo
Veremos o capitalismo e socialismo de formas bem simplificadas.
Por capitalismo vamos entender que é onde as pessoas criam empresas visando o lucro. Vimos pelas más experiências que quando isso se transforma na redução de custos, a coisa pode ser traumática. Contudo, há os que dizem que a concorrência resulta em produtos bons, e no caso da boa experiência, certamente há motivação do Google em concorrer com a Microsoft e por isso desenvolverá um ChromeOS bom. Mas é bom frisar: o Google quer concorrer com a Microsoft, e não com os fabricantes de computadores baratos que fizeram as porcarias. Os defensores do capitalismo falam como se a busca pelo lucro e a concorrência por si fossem resolver tudo (a tal da autoregulação), mas aqui estamos vendo que não é tão automático assim.
Então vejamos criticamente o socialismo também. Mas aqui vamos simplificar e entender o socialismo como estatismo, ou seja, tendência à estatização. Novamente, tivemos experiências boas e más.
Se bem que os socialistas podem reclamar que licitação é concorrência entre empresas que participam dela e por isso há interesse capitalista (que levou à desastrosa busca por redução de custos). Mas acho que podemos manter o essencial da nossa crítica pois os capitalistas acusam o socialismo de ser um sistema em que burocratas não trabalham direito "enganando" (segundo eles) a população.
Assim vamos entender o socialismo assim: sistema onde as pessoas cumprem as metas estatais, mas a meta pode ser formalmente cumprida (pelo funcionário do governo ou empresa que participe da licitação) sem que seja pelas melhores formas de cumprí-la. Capitalistas costumam caçoar dos socialistas dizendo que quando o governo estipula a meta de fornecer vidro por quantidade, os burocratas de má vontade produziam vidros finíssimos inutilizáveis, e que quando o governo estipula vidro por peso, burocratas produziam vidros tão grossos e pesados que também não serviam. Dizem os capitalistas que esse é o grande mal da falta de concorrência.
Podem dizer os socialistas que reduzir o socialismo a estatismo além tudo está errado, pois o socialismo é o trabalho coletivo de pessoas pelo bem de todos. Mas vou relevar isso, pois da mesma forma capitalistas também poderiam dizer que capitalismo é o sistema onde a busca pelo lucro e concorrência levam ao bem de todos, o que vimos que nem sempre é assim. Sendo assim, vamos continuar com a análise simplificada dos sistemas.
E o software livre? Nasceu da colaboração de milhares de pessoas, mas não do Estado, ainda que seu embrião tenha sido gestado por estudantes de universidades públicas, mas sem funções propagandísticas (como são as inaugurações de pontes e estradas etc). O nascimento se deu a partir de estudantes que estavam na universidade, mas como local autônomo (a famosa autonomia universitária) e por formados que dedicaram suas horas livres à colaboração e não visando o lucro (que na época, devido ao sistema estar engatinhando e ser rudimentar, não tinha nem como obter lucro mesmo, o seu desenvolvimento posterior é que muda essa história).
Por essas características, numa simplificação exagerada (mas bem exagerada), o software livre nasceu de um ambiente autônomo anarquista ou comunista (entendendo comunismo como superior ao socialismo). Com seu desenvolvimento é que empresas buscaram compatibilizar a filosofia da liberdade e do código aberto com negócios que rendessem lucro e os governos (órgãos mesmo e não estudantes e professores de universidades) buscaram soluções através do software livre.
Note que tanto empresas como governos teriam interesse em manter fechados os softwares, mas não podem fazê-lo pois têm de respeitar o movimento do software livre.
O fato do sistema ir se aperfeiçoando de forma aberta a contribuidores preserva o interesse genuinamente coletivo. Se cada colaborador tivesse sua empresa e mantivesse a melhoria para seu próprio produto fechado para si, teríamos vários sistemas interessantes, mas nada que essa força conjunta produziu. De certa forma, ao termos várias empresas que concorrem entre si (vendem várias distribuições de Linux), mas colaboram com o desenvolvimento do sistema, temos algo como melhor dos dois mundos, ainda que soe contraditório. Aliás devemos analisar com cuidado mesmo, agora que o Google pretende entrar na arena: o Google pretende assustar a Microsoft, mas penso que ela não faz questão de tomar o lugar de outras versões de Linux. Mas se isso acontecer, como será? Os desenvolvedores continuarão motivados em desenvolver um Linux já que tem uma mega-multinacional à frente?
E ainda quanto ao interesse genuinamente coletivo, num país socialista, significa que esse produto (o sistema Linux) está permanentemente se aperfeiçoando das trocas entre quem usa e quem desenvolve. Não há como existir um burocrata fingir que atende a população e do outro lado uma população insatisfeita com o governo cheio de formalidades. Há os que dizem que socialismo não funciona pois sem busca de lucro e concorrência não há motivação. Se existir apenas um único Linux estatal, as pessoas se sentirão motivadas a colaborar?
Como se vê, tem várias reflexões interessantes que podemos fazer. Mas a conclusão (pelo menos minha) é a de que o sucesso do software livre não se deve às motivações capitalistas ou socialistas (estadistas), e tanto os que reduziram custos pensando no lucro quanto os que buscaram atender o governo apenas formalmente produziram resultados ruins. Na essência, na compreensão básica da filosofia do software livre é que entidades (seja governo ou empresas) podem produzir boas experiências para todos. Enfim, com o software livre temos o genuíno interesse coletivo.
Por capitalismo vamos entender que é onde as pessoas criam empresas visando o lucro. Vimos pelas más experiências que quando isso se transforma na redução de custos, a coisa pode ser traumática. Contudo, há os que dizem que a concorrência resulta em produtos bons, e no caso da boa experiência, certamente há motivação do Google em concorrer com a Microsoft e por isso desenvolverá um ChromeOS bom. Mas é bom frisar: o Google quer concorrer com a Microsoft, e não com os fabricantes de computadores baratos que fizeram as porcarias. Os defensores do capitalismo falam como se a busca pelo lucro e a concorrência por si fossem resolver tudo (a tal da autoregulação), mas aqui estamos vendo que não é tão automático assim.
Então vejamos criticamente o socialismo também. Mas aqui vamos simplificar e entender o socialismo como estatismo, ou seja, tendência à estatização. Novamente, tivemos experiências boas e más.
Se bem que os socialistas podem reclamar que licitação é concorrência entre empresas que participam dela e por isso há interesse capitalista (que levou à desastrosa busca por redução de custos). Mas acho que podemos manter o essencial da nossa crítica pois os capitalistas acusam o socialismo de ser um sistema em que burocratas não trabalham direito "enganando" (segundo eles) a população.
Assim vamos entender o socialismo assim: sistema onde as pessoas cumprem as metas estatais, mas a meta pode ser formalmente cumprida (pelo funcionário do governo ou empresa que participe da licitação) sem que seja pelas melhores formas de cumprí-la. Capitalistas costumam caçoar dos socialistas dizendo que quando o governo estipula a meta de fornecer vidro por quantidade, os burocratas de má vontade produziam vidros finíssimos inutilizáveis, e que quando o governo estipula vidro por peso, burocratas produziam vidros tão grossos e pesados que também não serviam. Dizem os capitalistas que esse é o grande mal da falta de concorrência.
Podem dizer os socialistas que reduzir o socialismo a estatismo além tudo está errado, pois o socialismo é o trabalho coletivo de pessoas pelo bem de todos. Mas vou relevar isso, pois da mesma forma capitalistas também poderiam dizer que capitalismo é o sistema onde a busca pelo lucro e concorrência levam ao bem de todos, o que vimos que nem sempre é assim. Sendo assim, vamos continuar com a análise simplificada dos sistemas.
E o software livre? Nasceu da colaboração de milhares de pessoas, mas não do Estado, ainda que seu embrião tenha sido gestado por estudantes de universidades públicas, mas sem funções propagandísticas (como são as inaugurações de pontes e estradas etc). O nascimento se deu a partir de estudantes que estavam na universidade, mas como local autônomo (a famosa autonomia universitária) e por formados que dedicaram suas horas livres à colaboração e não visando o lucro (que na época, devido ao sistema estar engatinhando e ser rudimentar, não tinha nem como obter lucro mesmo, o seu desenvolvimento posterior é que muda essa história).
Por essas características, numa simplificação exagerada (mas bem exagerada), o software livre nasceu de um ambiente autônomo anarquista ou comunista (entendendo comunismo como superior ao socialismo). Com seu desenvolvimento é que empresas buscaram compatibilizar a filosofia da liberdade e do código aberto com negócios que rendessem lucro e os governos (órgãos mesmo e não estudantes e professores de universidades) buscaram soluções através do software livre.
Note que tanto empresas como governos teriam interesse em manter fechados os softwares, mas não podem fazê-lo pois têm de respeitar o movimento do software livre.
O fato do sistema ir se aperfeiçoando de forma aberta a contribuidores preserva o interesse genuinamente coletivo. Se cada colaborador tivesse sua empresa e mantivesse a melhoria para seu próprio produto fechado para si, teríamos vários sistemas interessantes, mas nada que essa força conjunta produziu. De certa forma, ao termos várias empresas que concorrem entre si (vendem várias distribuições de Linux), mas colaboram com o desenvolvimento do sistema, temos algo como melhor dos dois mundos, ainda que soe contraditório. Aliás devemos analisar com cuidado mesmo, agora que o Google pretende entrar na arena: o Google pretende assustar a Microsoft, mas penso que ela não faz questão de tomar o lugar de outras versões de Linux. Mas se isso acontecer, como será? Os desenvolvedores continuarão motivados em desenvolver um Linux já que tem uma mega-multinacional à frente?
E ainda quanto ao interesse genuinamente coletivo, num país socialista, significa que esse produto (o sistema Linux) está permanentemente se aperfeiçoando das trocas entre quem usa e quem desenvolve. Não há como existir um burocrata fingir que atende a população e do outro lado uma população insatisfeita com o governo cheio de formalidades. Há os que dizem que socialismo não funciona pois sem busca de lucro e concorrência não há motivação. Se existir apenas um único Linux estatal, as pessoas se sentirão motivadas a colaborar?
Como se vê, tem várias reflexões interessantes que podemos fazer. Mas a conclusão (pelo menos minha) é a de que o sucesso do software livre não se deve às motivações capitalistas ou socialistas (estadistas), e tanto os que reduziram custos pensando no lucro quanto os que buscaram atender o governo apenas formalmente produziram resultados ruins. Na essência, na compreensão básica da filosofia do software livre é que entidades (seja governo ou empresas) podem produzir boas experiências para todos. Enfim, com o software livre temos o genuíno interesse coletivo.