Teixeira escreveu:
Eu prometi, e como costumo cumprir todas as minha ameaças, vou contar a vocês outra história de fogão a gás.
Meu avô era um daqueles camaradas de uma calma impressionante.
Tinha hora que parecia até um tardigrado, de tão calmo.
E ele um dia, foi fritar um ovo (essa foi a intenção).
Porém primeiro tenho de falar do gato-cordão (*), que era um gato negro que nós tínhamos e que gostava de dormir no chão da sala.
Com a aquisição do moderno fogão a gás, este foi instalado na sala, pois não cabia na cozinha.
Então vocês já devem ter percebido o conflito territorial, não?
O Marinaro abriu o gás, pegou a frigideira, a manteiga, o ovo... o que mais? Ah, sim, o sal!
Faltou alguma coisa, por falta de costume.
Um fogão a lenha está sempre aceso, sempre tem água quente, sempre tem labaredas ou brasas.
Mas um fogão a gás precisa de... fósforos!
Enquanto isso, o gato-cordão estava lá, dormindo sossegado, como todo felino gosta de fazer.
Com a explosão que se sucedeu, várias peças do fogão saíram voando, e um dos cachimbos foi lá onde estava o gato, que acordou dando um pulo enorme para cima.
Agora imaginem o quadro:
O gato preto, com olhos verdes, espantadíssimos.
Durante todo o dia ninguém chegava perto dele...
E o Marinaro, todo desconcertado, com a frigideira na mão, certamente imaginando "o que foi que deu errado?"
(*) Gato-cordão é porque a gata teve três filhotes, sendo um malhado, com o número 10 na testa (depois a mancha fechou e virou 11) e dois gatos pretos muito parecidos.
Minha avó resolveu ficar apenas com o gato que se alimentasse melhor. Quando isso foi finalmente determinado, ela amarrou um cordão vermelho no pescoço dele, que passou a ser o gato-cordão, enquanto o outro, por ter a mania de se enfiar no meu sapato passou a ter o nome mais-que-óbvio de gato-sapato.
Esse gato malhado era o Mimi (foi minha avó quem botou esse nome) e o bicho era tão arisco, que dentro de casa só eu botava a mão nele; fora de casa, nem eu.
E outra: Ele brincava de unhas abertas, ao contrário da maioria dos gatos domésticos. Mas não arranhava, exceto por acidente.
Dava uns tapas incrivelmente fortes (considerando o tamanho do animal), e chegava a jogar meu braço a quase um metro de distância.
Foi bom tê-lo por que aprendi bastante com a cinemática dos felinos, o que me ajudou na prática da luta livre.
Eles usam uma tática de aceleração progressiva.
Nós humanos damos tapa "com a mão" e o braço "vai junto", apenas para acompanhar o movimento.
Os felinos movem primeiro o ombro, depois o braço, depois o antebraço e por fim a mão e os dedos, em uma sequência contínua. Isso multiplica em muito a eficácia do golpe sobre o alvo, e dificulta as ações defensivas.
A gata aqui de casa também brinca com as unhas e dentes, e isso lhe valeu o apelido singelo de Gatanás...