Quando se fala em ambientes gráficos leves no
Linux (leves de verdade e não que dizem ser), quase sempre o papo cai em três nomes:
LXDE,
XFCE e
LXQt.
O LXQt costuma ser o mais incompreendido deles - muitas vezes tratado como "LXDE moderno" ou "Plasma pra máquina perereca", quando na prática ele é outra coisa, com outras prioridades e outras concessões mas mantendo a
funcionalidade desejada por quem "só quer usar o PC". Este texto é uma análise honesta do LXQt: como ele surgiu, como ele funciona por dentro, onde ele acerta e onde ele simplesmente não tenta (e não quer) competir.
A origem: quando o Qt venceu o GTK
O LXQt nasce de um fato simples e inevitável: o LXDE não quis seguir o
GTK3. O LXDE original era escrito em
GTK2. Quando o GTK3 chegou, com mudanças profundas de API, dependências maiores e decisões que iam contra a filosofia de leveza extrema sem capar muito a funcionalidade, o projeto simplesmente travou.
Ao mesmo tempo, o
Razor-Qt, outro desktop leve baseado em
Qt, enfrentava dificuldades semelhantes: enquanto o LXDE sofria por depender do GTK - que caminhava para mudanças profundas e pesadas (GTK3/GTK4), o Razor-Qt, pelo seu lado, enfrentava dificuldades semelhantes por depender do Qt, que ainda não estava maduro e estável o suficiente para sustentar um desktop completo e coeso. A solução foi pragmática (e rara no mundo Linux): unir dois projetos diferentes e reescrever tudo em Qt.
Assim nasce o LXQt, oficialmente em 2014. Não é um fork do LXDE e nem é uma evolução direta: é uma reconstrução, com outra base, outro toolkit e outro público-alvo.
Arquitetura: LXQt não é um "desktop monolítico"
Aqui está um ponto-chave que muita gente ignora. O LXQt não é um ambiente gráfico fechado como GNOME ou KDE. Ele é um conjunto de componentes independentes, amarrados por convenção:
- lxqt-panel = painel;
- pcmanfm-qt = gerenciador de arquivos e desktop;
- lxqt-session = sessão;
- lxqt-runner = launcher;
- lxqt-config = centro de configurações;
- Openbox / KWin / etc. = window manager externo.
Nada disso é profundamente integrado e isso até pode trazer grandes vantagens mas também grandes limitações, essas detestáveis por quem espera mais de um ambiente gráfico mesmo sabendo das tais limitações - como eu.
Filosofia central: "não reinventar o sistema"
O LXQt parte de uma decisão muito clara: "se já existe um padrão freedesktop, usamos. Se não existe, não inventamos.". Isso explica muita coisa:
- Sem APIs próprias de extensão (um saco isso);
- Sem sistema de plugins avançados (outro saco);
- Sem "scripts nativos" no gerenciador de arquivos (mais saco ainda);
- Sem comportamento mágico no wallpaper, menus ou contexto (idem).
O LXQt prefere arquivos
.desktop, padrões
XDG, chamadas diretas de sistema. Com isso se torna mais previsível, simples mas pouco flexível.
PCManFM-Qt: simples, rápido e limitado
O
PCManFM-Qt é o coração visual do LXQt. Ele faz três coisas:
- Gerenciador de arquivos;
- Desktop (ícones + wallpaper);
- Integração com ações via padrão freedesktop.
E é aqui que surgem várias frustrações para usuários mais avançados:
- Não existe "Nautilus Scripts" ou formas diretas de integração de scripts;
- Não há sistema de scripts detectados automaticamente.
Tudo precisa ser feito via pasta para ter as ações via menu de contexto:
~/.local/share/file-manager/actions/*.desktop
Funciona? Sim; é elegante? Não muito.
Ações sem interface gráfica
Não existe UI para criar ações de menu, tudo é manual, na unha. Isso é coerente com o projeto - mas "assusta" quem vem do KDE, Thunar ou Nautilus. Mas é só deixar de ser preguiçoso que aprende a dominar esse detalhe rapidinho: dá trabalho mas é gratificante quando se consegue fazer funcionar, hehehe.
Wallpaper: onde a filosofia cobra o preço
O caso do wallpaper é emblemático. No LXQt:
- O pcmanfm-qt desenha o desktop;
- Ele não reage bem a mudanças externas;
- O modo (fit, crop, etc.) é global e cacheado;
- A CLI não recalcula comportamento.
Resultado prático:
- Wallpaper via interface gráfica = funciona, só que tem mais "cliques" para chegar lá;
- Wallpaper via script - comportamento inconsistente mas fica legal com o wallpaper na mesma resolução da tela;
- Imagem fora da resolução da tela - resultados ruins.
Ferramentas clássicas como
feh ou
nitrogen não funcionam se o desktop do PCManFM-Qt estiver ativo, só funcionam se você desligar o desktop. Isso não é bug acidental - é decisão arquitetural.
Configuração: minimalismo real e até meio exagerado
O centro de configurações do LXQt é honesto:
- Não esconde opções, é que não tem mesmo;
- Não cria abstrações desnecessárias, já basta as eventuais decepções do usuário;
- Não tenta "adivinhar" o usuário.
Mas também:
- Não oferece automações;
- Não integra profundamente componentes;
- Não resolve conflitos sozinho.
Se você quer menus contextuais complexos, comportamento automático e decisões inteligentes baseadas em contexto, o LXQt não é esse desktop.
Desempenho: aí sim a bagaça é outro nível
Onde o LXQt realmente entrega:
- Consumo de RAM baixíssimo e menos serviços rodando;
- Inicialização rápida por carregar menos coisas;
- Nenhum serviço rodando sem motivo;
- Excelente em máquinas antigas ou VMs.
Ele é mais leve que KDE Plasma, mais moderno que LXDE e mais previsível que GNOME. Mas isso não significa que os programas que usa de outros ambientes não vão usar recursos, como Firefox, Gimp ou Libre Office.
Prós (reais)
- Extremamente leve;
- Usa Qt (boa integração visual e funcional);
- Modular;
- Previsível (no sentido de sem muitas surpresas do tipo "caçamba! Bugou!");
- Fácil de depurar;
- Ideal para setups customizados, sejam pererecas ou não.
Contras (assumidos)
- Pouca automação;
- Integração fraca entre componentes;
- Gerenciamento de wallpaper ruim;
- Scripts exigem trabalho manual;
- Poucas "comodidades modernas";
- Depende muito do usuário saber o que está fazendo OU de querer aprender.
Para quem o LXQt é ideal?
- Usuários técnicos ou masoquistas;
- Quem gosta de controle explícito ou é "do contra" do que vemos hoje com outras DEs;
- Máquinas fracas;
- Ambientes corporativos ou caseiros simples;
- Quem prefere "padrão freedesktop" a efeitos e complexidade de filmes como Avatar.
Para quem não é
- Quem quer tudo pronto na boquinha;
- Quem vem do KDE esperando o mesmo nível de integração;
- Quem gosta de automações inteligentes (o tradicional "next, next, finish");
- Quem quer UX polida sem ter que fazer ajustes.
Conclusão
O LXQt não é um desktop incompleto e sim um desktop honesto, não promete o que não entrega e não tenta competir onde sabe que perderia. O preço dessa honestidade é claro: quando algo não funciona "sozinho", não é bug - é escolha. Se isso é virtude ou defeito, depende muito mais do usuário do que do projeto.
Se você como usuário quiser configurá-lo ao seu jeito, dependendo do que seja nem sempre vai ficar como no Gnome ou Plasma 6, nó máximo próximo disso nas funcionalidades básicas. E é para máquinas modestas com usuários sem muitas exigências OU usuários que querem experimentar outras interfaces pra se convencerem de que as que usam é ou não a melhor opção.